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Lembro-me como se fosse ontem a primeira vez em que vi um cubo de chocolate. Derivados de cacau eram difíceis de encontrar desde que a guerra começara e todos haviam sido confiscados pelo Governo Marrom como munição. Lá na última zona neutra, então, eram especialmente impossíveis, já que qualquer contrabando de frutas cristalizadas ou Hersheys era considerado afronta gravíssima à neutralidade pública, e seu responsável era devidamente presenteado com uma viagem só de ida para a prisão.
Nossa mãe desenrolou o cubinho de chocolate do pano sujo que trouxera escondido no avental. Ela sabia que era proibido, mas também sabia que cacau era um presente de valor incomensurável para qualquer criança. Havia outras formas de fazer crianças normais felizes, é verdade, mas nós não éramos crianças normais. Éramos um bando de órfãs cuja vida fora roubada pela guerra. E para as crianças mais tristes, o justo seria a maior felicidade. Ou pelo menos era nisso que nossa mãe acreditava.
Ela não era nossa mãe de verdade, mas, naquele momento, sentimos como se fosse.
Ralamos com cuidado o quadradinho, dando na pontinha do dedo de cada criança do orfanato uma lasquinha daquela felicidade marrom. Ela derreteu imediatamente na minha língua, mas nunca esqueci o que senti com aquele chocolate. Tinha gosto de um passado ou futuro distante, onde semelhantes não brigavam pela discordância com o recheio do pão alheio.
Tinha gosto de liberdade.
Isso foi há muitos anos. Batalhamos por migalhas e vacilamos para sobreviver por cada um deles. Em algum momento, nossa mãe foi descoberta e levada pelos agentes do governo neutro. Nunca mais a vimos. Seguimos do jeito que pudemos mesmo assim. Agora, a maioria das crianças do orfanato já havia partido para sua própria vida. Ou pior.
E a guerra ainda seguia.
Chequei as flechas com fermento explosivo na minha aljava. Todos nós já havíamos perdido coisas demais com ela. Guardei os lasers antifrutas com mira de açúcar no coldre das minhas coxas. E eu já havia perdido tempo demais sem revidar. Prendi minhas duas katanás gêmeas com lâmina morna derretedora de chocolate cruzadas nas minhas costas.
A guerra dos chocotones e panetones ainda seguia. Mas não por muito tempo.
(...)"
- As Crônicas de Niazinha VI: um conto de Natal. BOLINHOS, Niazinha. Rio de Janeiro, 2014. p. 8-9. Romance não publicado porque não existe.